roxy carmichael nunca voltou

quando um homem não tem beijado

ana guadalupe

Quando um homem não tem beijado
(Jeffrey McDaniel)

Quando não beijo há muito tempo,
eu ando atrás de mulheres bem vestidas

em manhãs frias de dezembro e enfio
os suspiros fumegantes que brotam de seus lábios

goela abaixo com minhas duas mãos, na esperança
de que uma só molécula se agarre aos meus pulmões.

Quando não beijo há muito tempo,
eu entro escondido no banheiro feminino de um restaurante chique,

reviro o lixo em busca do guardanapo
onde uma mulher passou o excesso de batom

e vou pra casa, acendo velas, coloco Barry White pra tocar
e esfrego o guardanapo pelo meu corpo todo.

Quando não beijo há muito tempo,
eu começo a pensar que as sanguessugas são as criaturas

mais românticas, porque tudo que elas querem fazer é beijar.
Se alguém inventasse uma sanguessuga mais legal e gentil,

eu a pintaria de rosa e fingiria
que os lábios da Winona Ryder tinham rastejado do rosto dela

até minha coxa e estavam chupando
meu bíceps inchado. Quando não beijo

há muito tempo, eu crio distúrbios civis
e insulto os policiais que aparecem,

até que um deles me agarre pelo colarinho
e me jogue contra a viatura,

pra que eu possa lembrar, mesmo que por um momento,
como é ser tocado.

- poema do livro “the splinter factory”, traduzido por mim
leia o original aqui!

inutilidades para o amor romântico

ana guadalupe

I
não sei o que fazer com você
chinelos de dedo decorados com miçangas
pequenos morcegos de crochê

II
não sei o que fazer com você
estampa pra camiseta, caneca, capa de caderno
onde errarei uma das letras do seu sobrenome
onde você não vai anotar suas coisas
coisa nenhuma

III
não sei o que fazer com você
embora pense nisso
antes de dormir e aos domingos
que é quando há tempo sobrando
eu poderia por exemplo
só me aproximar no quinto dia útil
ou esperar nossos quarenta anos
o que seria um ato heróico
considerando a rapidez dos novos tempos
poderia também desenvolver
melhor o texto das mensagens
e caprichar no mistério
sei que você aprecia um mistério
poderia muito bem fazer uns jogos
sumir durante um tempo e voltar em julho
mentir que viajei pelo mundo
em teoria voltei com novos olhos
com horizontes que aumentaram tanto
que estouraram
te mostraria então os restos dos meus horizontes
mas antes
poderia te encaixar em tarefas mais intrigantes
como a montagem de móveis
e a culinária para principantes
o incrível papel de escovador de dentes
antes de dormir e aos domingos
quando não sei o que fazer nem comigo
e quando é de costume voltar sem resposta
ao início

jovem empreendedor

ana guadalupe

meu estômago
tem mais projetos que eu
meu estômago está a cada dia mais perto
de seu grande sonho
do movimento exato de mistério
que gostaríamos de ver por dentro
apenas em teoria

meu estômago
arde com força e alegria
se atira pra cima impetuoso
em paixões que parecem antigas
das quais eu porém só conheço o gosto
traços de milho ou aveia ou trigo
todos apelidados de “espinhos”
por meu estômago

war

ana guadalupe

a nervous tick
waiting for someone
to come

to drink water
to unbutton pants
to play ball

to shoot softly
to pull muscles
to accumulate breath

to suffocate
under their own weight
the weight of another:

an anvil
a piano
a pillow

um poema em inglês que termina com a sonora palavra “pillow”? sim.

esse é um poema meu traduzido pelo jeremy spencer, editor do e-zine e selo the scrambler, da califórnia. traduzimos juntos mais outros 4 poemas sortidos, e você pode vê-los todos aqui. ele está traduzindo poesia de vários países, e mais novidades estão a caminho. além disso, os livros publicados lá são bastante simpáticos e me fizeram conhecer autores com quem dá vontade de fazer amizade (matthew savoca e kendra grant malone, por exemplo).

quando cortam a internet

ana guadalupe

quando cortam a internet
coisas absurdas acontecem
mas não sem a tentativa de refresh
e do refresco de cogitar antes
um lapso passageiro
raios
insetos no aparelho

quando a página some
levando embora um link que se perderá
pra sempre, é aí que uma coceira aparece
então descobre-se que o eu lírico
carregava meses de urticária
ou brotoejas
ou micose da pior espécie

quando ninguém mais digita palavra
nenhuma, nosso herói ou heroína
se levanta com tontura pra ir à esquina
descobre árvores inesperadas
na sacada, quatro ou cinco
parentes desacordados
na escada de casa